Cisne Negro – Uma jornada à transcendência

Darren Aronofsky sempre foi um diretor que gosta das coisas viscerais. Desde seu primeiro longa-metragem, o impressionante Pi (1998), há um flerte entre uma abordagem realista e intimista sobre os personagens e o surrealismo de seus pensamentos. Tudo para criar algo que reflita exatamente o teor emocional daquelas vidas ali retratadas. Em Cisne Negro não é diferente.

O que é diferente é que o filme tem Natalie Portman no papel principal de Nina, uma bailarina perfeccionista que busca uma oportunidade de mostrar todo seu empenho. Até que é escolhida pelo diretor da companhia (o ótimo Vincent Cassel) para interpretar os dois papéis principais de O Lago dos Cisnes: o Cisne Branco, bom, puro e perfeito, e o Cisne Negro, mal, sedutor e visceral. Sim, VISCERAL. Não poderia ser melhor para um filme de Aronofsky.

O fato é que chega uma nova bailarina, Lily, que pende para “o lado negro da força” (ou Cisne Negro, como preferir) e dá um empurrãozinho na longa jornada de Nina à composição do seu personagem mal. Aliás, uma jornada que passa pelas emoções que criam coisas palpáveis e reais diante de nossa bailarina. É a partir daí que Aronofsky acha sua licença poética para construir suas cenas mais “pesadas” e surrealistas. O outro grande lance de Cisne Negro é que o diretor se aventura pelo suspense e pelo terror psicológico, tudo para sintetizar o que Nina está sentindo à medida que “se deixa levar”, como diz o diretor da companhia de balé.

Como é comum, Aronofsky consegue extrair de seus atores interpretações memoráveis. Mila Kunis prova aqui que não é apenas um rostinho bonito MESMO e empresta toda sua espontaneidade à sua personagem numa performance já premiada. Barbara Hershey, como a mãe controladora de Nina, dá mais medo do que algumas das cenas mais fortes, tamanho é seu controle sobre a filha. Winona Ryder, em sua pequena aparição, também é marcante…

E aí tem a Natalie.

Só pela versão Cisne Branco a atriz já é digna de aplausos (de pé). Sua delicadeza e esforço, não só físico (porque sua preparação foi digna de uma verdadeira bailarina) mas emocional são no mínimo impressionantes. Todas as cenas em que dança, com a câmera a seguindo e dançando junto, sob a paleta de cores sombrias de Matthew Libatique, são lindas e tocantes. Há uma tendência a usar  branco e o preto para simbolizar a dualidade dos cisnes (no começo Nina só veste roupas brancas e, conforme vai mudando, começa a usar cinza, até chegar no preto). A trilha sonora de Clint Mansell emula Tchaikovsky e, como seus trabalhos anteriores, é linda. (E não foi indicada ao Oscar, com a justificativa de que tem muito de Tchaikovsky e menos de Mansell. Aham.)

E finalmente o Cisne Negro. O fim do filme é uma das sequências mais marcantes dos últimos anos. É a prova da transformação final de Nina: é a personificação absoluta. A fisionomia de Natalie Portman nunca foi tão arrebatadora. É como se não fosse aquela moça delicada que todos nós vimos fazendo Amidala em Star Wars. Seu olhar é cortante. Seus movimentos são livres e sedutores. Não tem explicação. E é aí que Cisne Negro chega ao seu ápice para abordar a questão da arte e sua possibilidade de TRANSCENDÊNCIA. Ali não é mais Natalie nem Nina. É a incorporação de uma criação artística. E isso é lindo. LINDO. É tocante a forma como a arte pode levar o artista a patamares nunca antes alcançados. Não deixa de ser um escape; só que é mais que isso. É a síntese do “se deixar levar”. É a síntese de se valorizar com receptáculo de uma nova realidade, uma nova dimensão. Isso é arte. E este filme é um dos exemplares mais brilhantes.

Vitor Gonçalves

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Um pensamento sobre “Cisne Negro – Uma jornada à transcendência

  1. Rafael disse:

    “Ali não é mais Natalie nem Nina. É a incorporação de uma criação artística. E isso é lindo” – It was perfect! hehehe
    Adorei o texto!
    Besos
    ;D

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