Arquivo do autor:Carlos F.

O Deserto Vermelho

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Monica Vitti

Fazer uma análise crítica de qualquer filme do Antonioni é uma tarefa hercúlea, que se apresenta não só pela interpretação do filme, mas também na forma de tentar explicar a história para um leitor que não esteja familiarizado com a obra do diretor. Ninguém melhor do que o Antonioni conseguiu traduzir e dar forma tão bem estruturada a um sentimento específico. O vazio existencial.

Seus planos longos, seus personagens atormentados, a diminuição do fator humano frente os cenários industriais, a frequente busca de algo pelas personagens que nunca se realiza enfim, a marca de Antonioni está impregnada não só nesse filme mas, em todo o cinema moderno especialmente no cinema novo.

Sobre o título do filme, o que melhor pode explicar é uma lenda que existe sobre o roteiro de Gritos e Sussuros do Bergman. Reza a lenda que no roteiro Bergman deixo bem claro que a cor predominante do filme deveria ser o vermelho, pois essa era a cor da alma.

No filme em questão acompanhamos Giuliana (Monica Vitti) uma dona de casa renegada física e pessoalmente pelo seu marido um operário com um cargo gerencial em uma fábrica próxima. Giuliana sofreu um “acidente” segundo seu marido e teve que ficar mais de um mês internada. Esse “acidente” só é revelado como uma tentativa de suicido por Giuliana para um amigo/amante quase no final do filme. Pode parecer uma história simples, banal, mas ai que entra o papel do diretor.

Retratada de maneira fragmentada e constantemente contrapondo imagem das pessoas com imagens da natureza devastadas pelo avanço industrial, Antonioni mostra de maneira clara onde essa sociedade vai nos levar. Tratando até de um tema muito comum nos dias de hoje. A poluição, os dejetos industriais que destroem a natureza são os subprodutos de uma avançada sociedade industrial, assim como as pessoas que nessa “avançada” sociedade vivem.

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Hiroshima Mon Amour

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Emmanuelle Riva e Eiji Okada

O filme que vou comentar aqui no blog é o primeiro do que eu chamo trilogia da memória – Hiroshima Mon Amour(1959), Ano Passado em Marienbad(1961) e Muriel(1963) – do diretor precursor da Nouvelle Vague, Alain Resnais. Eu coloco esses três filmes como uma trilogia pois de certa forma, os três filmes retratam o mesmo tema, a memória ou a falta de memória/esquecimento, tendo como pano de fundo os horrores de uma guerra.  O fato de colocar Resnais como percursor da Nouvelle Vague e não como um integrante do movimento, é por ele não ser tão próximo do pessoal do Cahiers du Cinéma e, seus curtas já influenciarem muito a linguagem mais livre da Nouvelle Vague, com destaque para o curta Noite e Neblina(a Ju Maffia vai comentar mais sobre a Nouvelle Vague e o cinema de autor no próximo post).

Outro ponto importante que diferencia Resnais dos outros diretores da Nouvelle Vague é como ele sempre opta por trabalhar com romancistas ou roteiristas deixando eles escreverem o roteiro ou o livro. É o caso de Marguerite Duras em Hiroshima Mon Amour, primeiro filme a ser comentado aqui. Por acaso – ou não – os três primeiros roteiristas que trabalharam com Resnais fazem parte de um movimento similar a Nouvelle Vague, só que na literatura o Nouveau Roman. Que pretendia renovar a literatura francesa e tem como principais expoentes a Marguerite Duras e o roteirista do Ano Passado em Mariembad, Allain Robbe-Grillett, que é considerado o papa  do Nouveau Roaman.

Hiroshima Mon Amour, começa com um casal se abraçado e se beijando, ela é francesa de Nevèrs e está em Hiroshima para fazer um filme ele é Japonês de Hiroshima e arquiteto. Após as primeiras imagens dos dois começamos a vagar entre corredores de um hospital, corredores de um museu que relembra a destruição da bomba. Ela narra as imagens enquanto ele diz que aquilo não aconteceu. Que ela nunca esteve lá. Nesse momento do filme Resnais mostra toda a sua habilidade como diretor, documentarista e montador. Imagens documentais dos sobreviventes, dos filhos dos sobreviventes são intercaladas com imagens de city tours pela cidade reconstruída sem nenhuma lembrança do que aconteceu. Depois desse começo brilhantemente dirigido ela observa ele dormindo. Um movimento involuntário da mão dele imediatamente acorda memórias que ela preferia esquecer.

O filme continua com ela dizendo que vai voltar para França no dia seguinte e os dois não vão poder continuar se vendo. Terminando aquela aventura. Ele ignora os pedidos dela e vai encontrar com ela no set do filme e começa a pressionar ela, fazendo perguntas sobre o seu passado em Nevèrs durante a guerra. Depois da pressão ela começa a se abrir e revelar sobre sua paixão adolescente durante a guerra. Ela teve um caso com um soldado alemão dentro da França ocupada e com o fim da guerra, o soldado é morto pelos franceses e ela sofre com as represálias, até de sua família. Teve os cabelos raspados, ficou confinada em um porão sendo constantemente humilhada. Com pena ou vergonha de sua filha, sua mãe ajuda ela a fugir para Paris. A forma como o diretor conta toda essa história com as suas imagens documentais, travellings, personagens sem nomes e diálogos fragmentados  modificou dramaticamente a forma de fazer filmes. Abrindo um novo caminho, uma nova forma de representar  e construir um filme. A importância desse filme não está na sua história de amor e sim, em como a guerra, para ambos os lados, foi devastadora e como ela nunca deve ser esquecida.

Assistir Hiroshima Mon Amour pela primeira vez é uma experiência única, assim como viver uma guerra deve ser, a personagem diz no começo do filme sobre o museu em Hiroshima, “Os filmes foram feitos o mais seriamente possível. É simples, a ilusão é tão perfeita que os turista choram. Pode-se zombar, mas o que mais um turista pode fazer senão chorar?”. Os horrores de quem viveu a guerra nunca vão ser sentidos por alguém que nunca passou por isso. O que devemos fazer é nunca esquecer para que isso nunca se repita. Hiroshima Mon Amour é um grande retrato de uma guerra e de um pós-guerra, permanecendo vivo e nos lembrando a brutalidade do ataque em Hiroshima.

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Nova Moviola!

Olá, eu (Carlos) e a Ju Maffia, estamos ressuscitando A Moviola, mas com um foco um pouco diferente de antes. A ideia na verdade veio da Ju e eu apoiei. Se você procura uma crítica ou resenha sobre algum filme antigo, onde você pode procurar? Se algum dia você se fez essa pergunta a resposta agora é  A Moviola.

O foco do blog, serão todos os filmes e de qualquer tipo até os anos 1989, e só.

Nós vamos postar quinzenalmente no blog sendo um post uma crítica e outro post uma resenha mais simples sobre algum filme ou mostra retrospectiva de algum cineasta.  Sem contar que vamos revelar qual será o filme da próxima crítica.

Para a primeira analise, eu escolhi o primeiro longa metragem de ficção do diretor esquecido  Alain Resnais, Hiroshima Mon Amour. Se você estiver interessado em assistir antes de ler a crítica pode procurar o filme em locadoras especificas de “filmes de arte”  ou no torrent. O filme não é tão obscuro quanto parece e vai ser fácil de achar considerando que foi lançado na coleção de clássicos da Folha de São Paulo alguns meses atrás.