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Cinema francês – A Nouvelle Vague

A Bout de Souffle - Acossado - Jean-Luc Godard

Um dos mais famosos movimentos do cinema, a Nouvelle Vague ganha força na França durante os anos 1960. Ele surge com cineastas-cinéfilos vindos principalmente da revista Cahiers Du Cinema. Jovens franceses que buscavam mudar o cinema francês que, naquela época, estava estacionado no tempo.

A França sofreria diversas mudanças nos anos 1960. Enquanto em Hollywood, surgiam grandes ídolos do cinema como Marlon Brando e James Dean, na França a produção cultural havia estagnado. O conservadorismo reinava e os jovens começavam a se movimentar para lutar contra isso. Os movimentos estudantis se organizavam, para tomar força em 1968. Jornalistas cinéfilos se uniam para mudar os paradigmas do cinema francês e mundial.

Jovens como Jean-Luc Godard e François Truffaut começavam a produzir seus longas unidos pela admiração ao cinema. Desde os clássicos de Hollywood até Alfred Hitchcock, os filmes noir, os filmes do Nicholas Ray, Elia Kazan e sem esquecer os soviéticos Eisenstein e Dziga Vertov.

Estes cineastas se conheceram por meio da revista Cahiers du Cinema, criada em 1951, onde escreviam criticas e textos. Em suma, a Nouvelle Vague surgiu pois estes críticos resolveram colocar a mão na massa. Talvez, impulsionados pela morte de André Bazin, em 1958, que sequer chegou a assistir o primeiro longa de seu protegido, François Truffaut.

Truffaut dirigiu e escreveu o primeiro filme considerado parte do movimento, Os Incompreendidos. Em 1959, o longa que levou o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes, no mesmo ano em que Hirohima Mon Amour, de Alan Resnais, levava para casa o prêmio de critica.

Os Incompreendidos, não foi o primeiro filme a usar a câmera-stylo, filmes como Le Rideau Cremoisi de Alexandre Astruc, já faziam uso desta linguagem em 1953. Mas, certamente foi a partir deste filme que o cinema autoral começou a tomar forma na França.

400 Coups - Os Incompreendidos - François TruffautA câmera-stylo surgiu para apoiar o desejado cinema de autor. Onde o cineasta era responsável pelo roteiro e pela direção de seu longa. O resultado era um cinema mais intimista, pessoal e, claro, autoral. O filme quebrava como padrão estabelecido, sem desassociar-se do que eles consideravam bons filmes.

Pode-se dizer que o filme mais icônico do movimento é O Acossado, de Jean-Luc Godard. O filme se tornou o mais famoso pela mudança radical no modo como uma história era contada, que influenciou todos os outros filmes depois dele.

Outros filmes importantes que fizeram parte do movimento foram: Alphavile, de Godard,, Os Primos de Claude Chabrol, Jules et Jim e Os Incompreendidos de François Truffaut, entre muitos outros. Também compartilhando desse momento, mas não diretamente ligado a eles, podemos citar Alan Resnais com seu Hiroshima Mon Amour e O Ano Passado em Marienbad. Autores como Claude Chabrol e Eric Rohmer também dirigiram filmes muito importantes para a época.

Por fim, é possível afirmar que a Nouvelle Vague mudou por completo a forma como se faz cinema. Influenciando diretamente outros movimentos como o Cinema Novo e o cinema independente de Nova York. Além de ter introduzido linguagens cinematográficas que mais tarde foram absorvidas e popularizadas por Hollywood. Como, por exemplo, a câmera na mão. A Nouvelle Vague foi uma fase importantíssima do cinema mundial e nos trouxe muitos dos melhores filmes já feitos.

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Hiroshima Mon Amour

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Emmanuelle Riva e Eiji Okada

O filme que vou comentar aqui no blog é o primeiro do que eu chamo trilogia da memória – Hiroshima Mon Amour(1959), Ano Passado em Marienbad(1961) e Muriel(1963) – do diretor precursor da Nouvelle Vague, Alain Resnais. Eu coloco esses três filmes como uma trilogia pois de certa forma, os três filmes retratam o mesmo tema, a memória ou a falta de memória/esquecimento, tendo como pano de fundo os horrores de uma guerra.  O fato de colocar Resnais como percursor da Nouvelle Vague e não como um integrante do movimento, é por ele não ser tão próximo do pessoal do Cahiers du Cinéma e, seus curtas já influenciarem muito a linguagem mais livre da Nouvelle Vague, com destaque para o curta Noite e Neblina(a Ju Maffia vai comentar mais sobre a Nouvelle Vague e o cinema de autor no próximo post).

Outro ponto importante que diferencia Resnais dos outros diretores da Nouvelle Vague é como ele sempre opta por trabalhar com romancistas ou roteiristas deixando eles escreverem o roteiro ou o livro. É o caso de Marguerite Duras em Hiroshima Mon Amour, primeiro filme a ser comentado aqui. Por acaso – ou não – os três primeiros roteiristas que trabalharam com Resnais fazem parte de um movimento similar a Nouvelle Vague, só que na literatura o Nouveau Roman. Que pretendia renovar a literatura francesa e tem como principais expoentes a Marguerite Duras e o roteirista do Ano Passado em Mariembad, Allain Robbe-Grillett, que é considerado o papa  do Nouveau Roaman.

Hiroshima Mon Amour, começa com um casal se abraçado e se beijando, ela é francesa de Nevèrs e está em Hiroshima para fazer um filme ele é Japonês de Hiroshima e arquiteto. Após as primeiras imagens dos dois começamos a vagar entre corredores de um hospital, corredores de um museu que relembra a destruição da bomba. Ela narra as imagens enquanto ele diz que aquilo não aconteceu. Que ela nunca esteve lá. Nesse momento do filme Resnais mostra toda a sua habilidade como diretor, documentarista e montador. Imagens documentais dos sobreviventes, dos filhos dos sobreviventes são intercaladas com imagens de city tours pela cidade reconstruída sem nenhuma lembrança do que aconteceu. Depois desse começo brilhantemente dirigido ela observa ele dormindo. Um movimento involuntário da mão dele imediatamente acorda memórias que ela preferia esquecer.

O filme continua com ela dizendo que vai voltar para França no dia seguinte e os dois não vão poder continuar se vendo. Terminando aquela aventura. Ele ignora os pedidos dela e vai encontrar com ela no set do filme e começa a pressionar ela, fazendo perguntas sobre o seu passado em Nevèrs durante a guerra. Depois da pressão ela começa a se abrir e revelar sobre sua paixão adolescente durante a guerra. Ela teve um caso com um soldado alemão dentro da França ocupada e com o fim da guerra, o soldado é morto pelos franceses e ela sofre com as represálias, até de sua família. Teve os cabelos raspados, ficou confinada em um porão sendo constantemente humilhada. Com pena ou vergonha de sua filha, sua mãe ajuda ela a fugir para Paris. A forma como o diretor conta toda essa história com as suas imagens documentais, travellings, personagens sem nomes e diálogos fragmentados  modificou dramaticamente a forma de fazer filmes. Abrindo um novo caminho, uma nova forma de representar  e construir um filme. A importância desse filme não está na sua história de amor e sim, em como a guerra, para ambos os lados, foi devastadora e como ela nunca deve ser esquecida.

Assistir Hiroshima Mon Amour pela primeira vez é uma experiência única, assim como viver uma guerra deve ser, a personagem diz no começo do filme sobre o museu em Hiroshima, “Os filmes foram feitos o mais seriamente possível. É simples, a ilusão é tão perfeita que os turista choram. Pode-se zombar, mas o que mais um turista pode fazer senão chorar?”. Os horrores de quem viveu a guerra nunca vão ser sentidos por alguém que nunca passou por isso. O que devemos fazer é nunca esquecer para que isso nunca se repita. Hiroshima Mon Amour é um grande retrato de uma guerra e de um pós-guerra, permanecendo vivo e nos lembrando a brutalidade do ataque em Hiroshima.

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